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Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

Conto: O Homem que Escrevia

Não, este não é o meu conto presente no Front. É um que escrevi há um bom tempo e achei que já era hora de ir pra internet. Acho que mostra um pouco da vontade que me invade às vezes de desembestar a escrever.

Já que a série Quadro a Quadro anda meio abandonada, vai um texto de ficção pra variar. Então vamos lá. Leiam, comentem...

O Homem que Escrevia

Por Ricardo S. Tayra

- Posso saber o que o senhor tá anotando aí, seu moço?

Aquela tarde meio chuvosa convidava poucas pessoas a saírem de casa. O garoto pulava as poças. Pulava, errava, espirrava água para todo lado. O homem sentara de manhãzinha naquele murinho e de lá não tinha saído mais.

Puxou da pasta um caderno espiral, de tamanho grande. Não daqueles com diversas divisórias para matérias escolares. Era um inteiriço, devia ter umas duzentas páginas. Ou mais. Ou menos. Cada hora parecia que era de um tamanho. E o sujeito se mexia o tempo todo, não era possível saber exatamente a dimensão daquela folharada.

- Só umas coisas, garoto.

- O senhor escreve muito. Parece a Dora, quando a tia da escola dela manda fazer dever de casa complicado.

O outro virava o caderno de lado e continuava a escrever.

- É conta que o senhor tá fazendo? Somar eu sei sim, senhor, aprendi semana passada lá na minha escola.

- Às vezes. A maioria é só texto escrito mesmo.

Largou a caneta e tirou um lápis do bolso, tornando a rabiscar. Parecia que desenhava.

- Vê aquela senhora ali passeando com o carrinho de bebê?

- Sim, senhor, eu enxergo bem. Minha mãe é que tem que usar aqueles óculos. Eu não.

- E aqueles outros garotos ali, batendo uma bolinha? Aquelas meninas brincando de esconde-esconde? Aquele senhor sentado lááá na beira da janela do outro quarteirão?


- Tô vendo sim. Que tem?

- É isso que eu escrevo - e não parava, agora de volta com a caneta.

O garoto ficou pensativo. Escrevia o quê?

- Tudo que acontece. Eu vejo, ouço, anoto. Às vezes faço uns desenhos garranchados, ó (e mostrou alguns rabiscos). Quando não consigo descrever exatamente como é alguém ou algum lugar. É mais fácil rabiscar.

- O senhor escreve tudo o que a gente fala?

- Isso também. E o que todo mundo que está perto de mim fala - escreve, escreve - Agorinha há pouco passou um grupo de estudantes aqui, não passou?

- Eu vi sim. Eu tava pulando as poças.

- Vê aqui - e estendeu a folha. Sabe ler?

- Tô aprendendo. Gosto mais de jogar bola.

- Aqui está o que eles falaram quando passaram por mim. Tudo anotado. Quer que eu leia?

E leu. O garoto leu um pouquinho também, aquilo que sabia. Pouco sabia. O homem se divertia, mas não parava de escrever, mesmo enquanto lia.

- O senhor vai escrever duas vezes o que eles falaram! Porque o senhor leu de novo tudo o que tinha escrito aí!

- Vou. Se ler de novo, escrevo mais uma vez.

O menino resolveu desistir das poças e ficou acompanhando aquele senhor, também sentado no murinho. Ficava calado. Tinha medo de complicar o trabalho da escrita.

- Não complica não. Eu escrevo rápido.

Quando a noite veio, despediram-se. O homem ainda ficou lá, enquanto as luzes dos postes acendiam. O garoto foi direto pra casa. Jantou sopa de letrinhas.

*******

No dia seguinte se encontraram de novo. Não no murinho. Desta vez, o homem estava lá perto da escola. Tinha levado uma banqueta e uma mesinha. A criançada parou para olhar.

- Olha, olha! Ele colocou o que eu falei!

- E o que eu falei também!

O garoto olhava fixamente para a ponta daquela caneta em contato constante com a superfície do papel. Girava, rolava. Era difícil saber o que era mais rápido: a fala das pessoas, ou a fala sendo escrita. A garotada foi indo embora. Só ficou o menino.

- Quantos cadernos o senhor tem?

- Muitos, muitos. Alguns estão aí na minha sacola. Pode pegar.

Os cadernos tinham capas coloridas e um mundaréu de folhas. Todas preenchidas com palavras, ou desenhos mal-feitos. Tinha algumas coisas que não conseguia ler direito. Às vezes perguntava para o homem. Depois desistiu, achou que atrapalhava demais.

- O senhor não preferia ficar num lugar calmo, sem nada acontecendo?

- Eu? Não! Prefiro ficar onde tenha muito que escrever.

- O senhor nunca cansa?

- Um pouquinho. Durmo um pouco e depois estou novinho em folha.

- E fica sem escrever...

- Engano seu. Desenvolvi uma técnica, sabe? Combinei com minhas mãos e ouvidos. Mesmo dormindo, o que eu vou escutando vou escrevendo. Olhos também: só durmo com um de cada vez. O outro fica arregaladão, pronto para observar tudo. Do contrário, perderia alguma coisa.

- Eu, hein? – o menino pareceu ter pena do sujeito - Mas quando eu aprender escrever bem eu ajudo. Assim o senhor dorme.

- É, a gente pode combinar.

*******

Meses se foram. Mudaram as estações. E os anos passaram. O garoto sempre dava um jeito de encontrar o homem escrevendo, onde quer que estivesse.

- Olha só! Essa aqui é de quando eu tava na quinta série!!

- Eu lembro. Escrevi sem parar durante horas. Esse lugar que eu fiquei era próximo ao parque. Acontecia muita coisa todo o tempo.


Com a prática, o menino aprendeu a ler rapidamente. Escrever também, mas parecia ter se esquecido da promessa de ajudar o sujeito. Seu negócio era ler mesmo: quando a curiosidade era muita, levava alguns cadernos emprestados para casa. Ficava sabendo tudo o que acontecia ao redor do outro, até quando não estava por perto.

***********

- Como o senhor pôde? Ficou escutando toda a minha briga com a Gabi! Pior: anotou tudo!

- Vocês estavam perto de mim e falavam alto. Como você bem sabe, eu anoto tudo.

- Deixa eu ver! - gritava de ódio. Sua vontade era de rasgar todos aqueles cadernos, quebrar a caneta, a cadeira onde ele estava sentado. Leu a descrição precisa que o homem fez da briga. Voltou algumas páginas. Pediu os cadernos anteriores. O homem escrevia. Disse pro rapaz mesmo pegar.

Do alto de seus 15 anos, leu seu primeiro encontro com Gabriela meses antes. Haviam saído da escola para passear numa praça. O homem obviamente estava lá na ocasião. O olhar doce da menina e seu sorriso enorme percorreram sua mente enquanto lia. Garranchos. Desenhos, a imagem do primeiro beijo dos dois.

- Talvez eu esteja errado.

- É, talvez.

- Talvez ela não tenha mesmo dado bola praquele imbecil. Vou falar com ela.

- Quem sabe, pedir desculpas?

- E se ela tivesse com ele o senhor teria escrito aí, não?

- Claro. Se estivesse no meu campo de observação. E audição.

- Pode ser. Vou falar com ela.

**********

- O senhor podia pelo menos ter parado de escrever um pouco no meu casamento, não?

- Garoto, você sabe que eu não posso - e riscava mais e mais folhas - Sua mulher não reclamou.

- A Fátima é um amor mesmo. Ela diz que entende o que o senhor faz. Se fosse outra, como aquelas que eu namorava no colégio...

- E você? Não acredita mais no que eu faço?

- Não sei. É estranho. Eu falo, ando, chego aqui. Quando vou ler o que você escreveu, tá lá: ele falou patati-patatá e se aproximou andando. Fala do meu estado de espírito e até das minhas meias.

- É o que eu faço.

- Sabe, não consigo perceber se escreve antes mesmo de alguma coisa acontecer ou depois. Faz isso tão rápido!

- É ao mesmo tempo. Acontece, eu estou escrevendo.

- Tá certo.

**********

- Tudo bem com o senhor?

- Tudo bem, garoto. Foi só uma tontura passageira.

- E não deixou de escrever! Já não falei que isso ainda vai acabar te matando? Albertinho! Larga o caderno do moço!

- Ele estava só ajudando. E eu estou bem.

- Quem sabe, se o senhor dormisse mais.

Ficaram em silêncio. Albertinho desistiu de brincar com o amigo do pai e foi procurar a mãe. O homem anotava, anotava.

- Sabe, lembra quando eu te falei em revezar?

- Mas você disse que não acreditava mais no que eu fazia...

- Sei lá. Mas quero fazer isso. Vou revezar com o senhor.

- Então vai preparando a caneta. Vamos começar aos poucos.

No primeiro dia, agüentou apenas vinte minutos de escrita. Não era tão rápido quanto seu mestre, mas conseguiu cumprir o papel. Nos dias seguintes, foi melhorando. Ao final de uma semana, já escrevia duas horas sem parar. Era mais tempo para o homem dormir, ele pensava.

E o amigo realmente dormia. Depois daqueles anos todos, fechava ambos os olhos e desligava mãos e ouvidos. Dormia enquanto o jovem escrevia. Quando parava, o homem imediatamente acordava de sopetão e já engatilhava a caneta, despejando as frases no papel.

Meses depois, a dupla estava afinadíssima. O homem conseguia dormir as oito horas necessárias e o garoto não parava enquanto ele não abrisse os olhos. Vez ou outra, Fátima quisera ajudar também, mas não agüentou cinco minutos. Decidiu cuidar do filho, do trabalho e de outras coisas, deixando a escrita para o amigo e o marido.

O rapaz, em uma noite das mais longas num inverno antecipado, se deu conta do que acontecia. Era isso. O que acontecia ele escrevia. Não antes, não depois. Ao mesmo tempo. Quando faltavam palavras, recorria a garranchos. Valia a idéia. Ao mesmo tempo. Era só escrever. Acontecia. E ele já não era mais um garoto, ele era um homem. Um homem com sua família. Seu antecessor dormia todas as horas do dia e da noite. Não acordaria mais. Não era necessário. O trabalho agora estava com ele. Estava tudo ali. Era só escrever.

Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

5 dicas para escrever um roteiro de quadrinhos [Blogueiro Repórter]

Tendo produzido alguns trabalhos profissionais na área, de quando em quando me vejo à procura de explicar como é que se produz um roteiro para histórias em quadrinhos. Ora, isso exigiria uma série de longas conversas, ou artigos seriados, ou um livro. Mas como o bate-papo normalmente é curto, vou colocar aqui 5 dicas.


1) Escreva

Escreva muito. Pare de falar a respeito de escrever e escreva. Escreva tudo o que der na telha na hora. Pode não vir a fazer sentido algum no final, mas faz parte do processo de criação.

Não tem desculpa: você pode pegar uma folha simples de papel e desandar a escrever. Mas para quem tem acesso a computador, mais fácil ainda: vá jogando tudo num arquivo. Na hora de produzir o roteiro pra valer mesmo, você pode salvar o tal arquivo com outro nome: é mais fácil cortar, reescrever, reorganizar, editar, enfim... Mas isso só é possível se já tiver algo escrito.

2) Organize as idéias

Muitas delas são bacanas, mas não funcionam numa história só (vale a pena guardar para outras). Pense que as coisas têm que fazer sentido - ações têm conseqüências, como na vida real, e espera-se que exista começo, meio e fim. Mesmo que a HQ seja contada fora de ordem cronológica. Ora, você não aprendeu nada mesmo quando estudou dissertação na escola?

Vale apelar para as perguntas básicas dos jornalistas: Quem? O quê? Como? Por quê? Quando? Onde? Enquanto você elabora respostas para essas perguntas, vai delineando a história na sua cabeça (e no papel).


3) Não escreva para si mesmo

Esta dica vale especialmente quando o roteiro será desenhado por outra pessoa (embora acredite que valha mesmo quando se desenha uma história própria, para não ter que confiar na memória).

Um roteiro é uma ferramenta de trabalho. Você deve expor de maneira clara, o mais objetivamente possível, o que pretende que seja desenhado. O desenhista será seu primeiro leitor. Se não conseguir capturar o interesse dele, quem dirá dos demais? Ele ainda terá uma série de decisões a tomar para desenhar (acompanhe um profissional decidindo sobre o que colocar numa página e verá como funciona), então não seja preguiçoso e dê um mínimo de detalhe sobre as cenas: se não, ele terá que “adivinhar” o que passou por sua cabeça.

E escreva corretamente em língua portuguesa, por favor: escrever bem só se aprende com bastante prática e boa leitura. Um roteiro com erros crassos de português perde total credibilidade e o interesse do leitor.


4) Não fale sobre uma ação: mostre-a.

Você pode ser desenhista ou não, mas é importante pensar que o que você está escrevendo vai virar imagens. Ao invés de colocar uma caixa de narração explicando que um personagem é malvado, crie uma situação na qual ele possa demonstrar sua malvadeza. Uma imagem não vale mais que mil palavras?

Quanto mais importante a ação, mais detalhes você tem que incluir no roteiro, que servirá como orientação para o desenhista. Se uma expressão de um personagem é importante, num determinado momento, peça um close (isso, como em linguagem cinematográfica). Se o importante é mostrar onde ele está, marque um plano geral do local.

Vale lembrar que, num roteiro, você identifica o texto que deve entrar no quadrinho (nos balões, ou nos quadros de narração). Este texto sempre deve ser complementar à ação. Na maioria das vezes será ridículo você colocar um quadro com a narração “Ele desferiu um soco no queixo do adversário” enquanto o que se vê é um sujeito dando um soco no queixo de outro.

5) O tempo dos quadrinhos é um caso à parte

O tempo nos quadrinhos é determinado por fatores como o tamanho e detalhamento de um desenho e pelo espaço de requadro (o intervalo entre um quadrinho e outro).

Você pode narrar ações simultâneas intercalando quadros. Você pode colocar num quadro ou numa seqüência de quadros, um desenho que mostre o tempo daquela ação (como uma seqüência que mostra um sujeito em sua cama do ato de dormir até o de acordar, enquanto no fundo do quadro vemos uma janela mostrando o sol que vai raiando).

E existe também o tempo de leitura: um quadro de página inteira pode ser lido rapidamente ou não, dependendo do tamanho do desenho e dos detalhes contidos nele. É uma opção que se faz. Mas lembre-se: por mais que o roteirista e desenhista se esforcem para colocar “amarras” no tempo da HQ, o leitor ainda vai querer determinar seu próprio tempo de leitura e pode até subverter a ordem de leitura, pulando páginas (é a parte mais interativa do negócio). Um bom roteiro ajuda o leitor a mergulhar na história como ela foi concebida.


E então, aticei sua curiosidade? Pois bem. O próximo passo é começar a construir suas próprias histórias. Fique aqui com um exemplo de roteiro, um trecho de uma HQ online que criei para o estúdio Impacto Quadrinhos, que foi desenhado para o site Ford Kids.

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Este texto participa da iniciativa Blogueiro Repórter.

Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

Os segredos da ficção

Não lembro se foi por aqui que comentei, mas ando mais lendo sobre o ato da criação do que propriamente criando, ultimamente. Tentei a técnica do prazo com a preparação para um concurso de roteiro, mas foi por água abaixo graças a uma leitura errada de edital... Mas, enfim...

Nada de quadrinhos agora. O papo agora é o ato da escrita. Depois de Desenhando Quadrinhos, do Scott Mccloud (muito bom), estou às voltas com Os segredos da ficção - um guia da arte de escrever narrativas, do Raimundo Carrero. Legal porque desta vez vai: vou encarando a leitura enquanto programo algumas criações que, quero crer, logo começarão a pipocar por aqui. Não vou precisar o prazo aqui porque estou sem crédito nenhum por não ter cumprido o que prometi da última vez. Mas que vai, vai.

Quinta-feira, 1 de Março de 2007

Resenhas e Artigos

Já escrevi um tanto de coisas publicadas na internet. Vou criar esta seção aqui pra organizar tudo (mesmo que tenha saído em outro site).

Artigos

5 Dicas para Escrever um Roteiro de Quadrinhos (Sapos Voadores)

Polícia para Quem Precisa (Rede RPG)

"Solitário Lobo": As HQs ao contrário (Rede RPG)

Sonhos vêm, sonhos vão... (Rede RPG)


Resenhas de Quadrinhos


Resenhas de Livros