Não, este não é o meu conto presente no Front. É um que escrevi há um bom tempo e achei que já era hora de ir pra internet. Acho que mostra um pouco da vontade que me invade às vezes de desembestar a escrever.
Já que a série Quadro a Quadro anda meio abandonada, vai um texto de ficção pra variar. Então vamos lá. Leiam, comentem...
O Homem que Escrevia
Por Ricardo S. Tayra
Aquela tarde meio chuvosa convidava poucas pessoas a saírem de casa. O garoto pulava as poças. Pulava, errava, espirrava água para todo lado. O homem sentara de manhãzinha naquele murinho e de lá não tinha saído mais.
Puxou da pasta um caderno espiral, de tamanho grande. Não daqueles com diversas divisórias para matérias escolares. Era um inteiriço, devia ter umas duzentas páginas. Ou mais. Ou menos. Cada hora parecia que era de um tamanho. E o sujeito se mexia o tempo todo, não era possível saber exatamente a dimensão daquela folharada.
- Só umas coisas, garoto.
- O senhor escreve muito. Parece a Dora, quando a tia da escola dela manda fazer dever de casa complicado.
O outro virava o caderno de lado e continuava a escrever.
- É conta que o senhor tá fazendo? Somar eu sei sim, senhor, aprendi semana passada lá na minha escola.
- Às vezes. A maioria é só texto escrito mesmo.
Largou a caneta e tirou um lápis do bolso, tornando a rabiscar. Parecia que desenhava.
- Vê aquela senhora ali passeando com o carrinho de bebê?
- Sim, senhor, eu enxergo bem. Minha mãe é que tem que usar aqueles óculos. Eu não.
- E aqueles outros garotos ali, batendo uma bolinha? Aquelas meninas brincando de esconde-esconde? Aquele senhor sentado lááá na beira da janela do outro quarteirão?
- Tô vendo sim. Que tem?
- É isso que eu escrevo - e não parava, agora de volta com a caneta.
O garoto ficou pensativo. Escrevia o quê?
- Tudo que acontece. Eu vejo, ouço, anoto. Às vezes faço uns desenhos garranchados, ó (e mostrou alguns rabiscos). Quando não consigo descrever exatamente como é alguém ou algum lugar. É mais fácil rabiscar.
- O senhor escreve tudo o que a gente fala?
- Isso também. E o que todo mundo que está perto de mim fala - escreve, escreve - Agorinha há pouco passou um grupo de estudantes aqui, não passou?
- Eu vi sim. Eu tava pulando as poças.
- Vê aqui - e estendeu a folha. Sabe ler?
- Tô aprendendo. Gosto mais de jogar bola.
- Aqui está o que eles falaram quando passaram por mim. Tudo anotado. Quer que eu leia?
E leu. O garoto leu um pouquinho também, aquilo que sabia. Pouco sabia. O homem se divertia, mas não parava de escrever, mesmo enquanto lia.
- O senhor vai escrever duas vezes o que eles falaram! Porque o senhor leu de novo tudo o que tinha escrito aí!
- Vou. Se ler de novo, escrevo mais uma vez.
O menino resolveu desistir das poças e ficou acompanhando aquele senhor, também sentado no murinho. Ficava calado. Tinha medo de complicar o trabalho da escrita.
- Não complica não. Eu escrevo rápido.
Quando a noite veio, despediram-se. O homem ainda ficou lá, enquanto as luzes dos postes acendiam. O garoto foi direto pra casa. Jantou sopa de letrinhas.
- Olha, olha! Ele colocou o que eu falei!
- E o que eu falei também!
O garoto olhava fixamente para a ponta daquela caneta em contato constante com a superfície do papel. Girava, rolava. Era difícil saber o que era mais rápido: a fala das pessoas, ou a fala sendo escrita. A garotada foi indo embora. Só ficou o menino.
- Quantos cadernos o senhor tem?
- Muitos, muitos. Alguns estão aí na minha sacola. Pode pegar.
Os cadernos tinham capas coloridas e um mundaréu de folhas. Todas preenchidas com palavras, ou desenhos mal-feitos. Tinha algumas coisas que não conseguia ler direito. Às vezes perguntava para o homem. Depois desistiu, achou que atrapalhava demais.
- O senhor não preferia ficar num lugar calmo, sem nada acontecendo?
- Eu? Não! Prefiro ficar onde tenha muito que escrever.
- O senhor nunca cansa?
- Um pouquinho. Durmo um pouco e depois estou novinho em folha.
- E fica sem escrever...
- Engano seu. Desenvolvi uma técnica, sabe? Combinei com minhas mãos e ouvidos. Mesmo dormindo, o que eu vou escutando vou escrevendo. Olhos também: só durmo com um de cada vez. O outro fica arregaladão, pronto para observar tudo. Do contrário, perderia alguma coisa.
- Eu, hein? – o menino pareceu ter pena do sujeito - Mas quando eu aprender escrever bem eu ajudo. Assim o senhor dorme.
- É, a gente pode combinar.
- Olha só! Essa aqui é de quando eu tava na quinta série!!
- Eu lembro. Escrevi sem parar durante horas. Esse lugar que eu fiquei era próximo ao parque. Acontecia muita coisa todo o tempo.
Com a prática, o menino aprendeu a ler rapidamente. Escrever também, mas parecia ter se esquecido da promessa de ajudar o sujeito. Seu negócio era ler mesmo: quando a curiosidade era muita, levava alguns cadernos emprestados para casa. Ficava sabendo tudo o que acontecia ao redor do outro, até quando não estava por perto.
***********
- Como o senhor pôde? Ficou escutando toda a minha briga com a Gabi! Pior: anotou tudo!
- Vocês estavam perto de mim e falavam alto. Como você bem sabe, eu anoto tudo.
- Deixa eu ver! - gritava de ódio. Sua vontade era de rasgar todos aqueles cadernos, quebrar a caneta, a cadeira onde ele estava sentado. Leu a descrição precisa que o homem fez da briga. Voltou algumas páginas. Pediu os cadernos anteriores. O homem escrevia. Disse pro rapaz mesmo pegar.
Do alto de seus 15 anos, leu seu primeiro encontro com Gabriela meses antes. Haviam saído da escola para passear numa praça. O homem obviamente estava lá na ocasião. O olhar doce da menina e seu sorriso enorme percorreram sua mente enquanto lia. Garranchos. Desenhos, a imagem do primeiro beijo dos dois.
- Talvez eu esteja errado.
- É, talvez.
- Talvez ela não tenha mesmo dado bola praquele imbecil. Vou falar com ela.
- Quem sabe, pedir desculpas?
- E se ela tivesse com ele o senhor teria escrito aí, não?
- Claro. Se estivesse no meu campo de observação. E audição.
- Pode ser. Vou falar com ela.
**********
- O senhor podia pelo menos ter parado de escrever um pouco no meu casamento, não?
- Garoto, você sabe que eu não posso - e riscava mais e mais folhas - Sua mulher não reclamou.
- A Fátima é um amor mesmo. Ela diz que entende o que o senhor faz. Se fosse outra, como aquelas que eu namorava no colégio...
- E você? Não acredita mais no que eu faço?
- Não sei. É estranho. Eu falo, ando, chego aqui. Quando vou ler o que você escreveu, tá lá: ele falou patati-patatá e se aproximou andando. Fala do meu estado de espírito e até das minhas meias.
- É o que eu faço.
- Sabe, não consigo perceber se escreve antes mesmo de alguma coisa acontecer ou depois. Faz isso tão rápido!
- É ao mesmo tempo. Acontece, eu estou escrevendo.
- Tá certo.
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- Tudo bem com o senhor?
- Tudo bem, garoto. Foi só uma tontura passageira.
- E não deixou de escrever! Já não falei que isso ainda vai acabar te matando? Albertinho! Larga o caderno do moço!
- Ele estava só ajudando. E eu estou bem.
- Quem sabe, se o senhor dormisse mais.
Ficaram em silêncio. Albertinho desistiu de brincar com o amigo do pai e foi procurar a mãe. O homem anotava, anotava.
- Sabe, lembra quando eu te falei em revezar?
- Mas você disse que não acreditava mais no que eu fazia...
- Sei lá. Mas quero fazer isso. Vou revezar com o senhor.
- Então vai preparando a caneta. Vamos começar aos poucos.
No primeiro dia, agüentou apenas vinte minutos de escrita. Não era tão rápido quanto seu mestre, mas conseguiu cumprir o papel. Nos dias seguintes, foi melhorando. Ao final de uma semana, já escrevia duas horas sem parar. Era mais tempo para o homem dormir, ele pensava.
E o amigo realmente dormia. Depois daqueles anos todos, fechava ambos os olhos e desligava mãos e ouvidos. Dormia enquanto o jovem escrevia. Quando parava, o homem imediatamente acordava de sopetão e já engatilhava a caneta, despejando as frases no papel.
Meses depois, a dupla estava afinadíssima. O homem conseguia dormir as oito horas necessárias e o garoto não parava enquanto ele não abrisse os olhos. Vez ou outra, Fátima quisera ajudar também, mas não agüentou cinco minutos. Decidiu cuidar do filho, do trabalho e de outras coisas, deixando a escrita para o amigo e o marido.

