Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

5 dicas para escrever um roteiro de quadrinhos [Blogueiro Repórter]

Tendo produzido alguns trabalhos profissionais na área, de quando em quando me vejo à procura de explicar como é que se produz um roteiro para histórias em quadrinhos. Ora, isso exigiria uma série de longas conversas, ou artigos seriados, ou um livro. Mas como o bate-papo normalmente é curto, vou colocar aqui 5 dicas.


1) Escreva

Escreva muito. Pare de falar a respeito de escrever e escreva. Escreva tudo o que der na telha na hora. Pode não vir a fazer sentido algum no final, mas faz parte do processo de criação.

Não tem desculpa: você pode pegar uma folha simples de papel e desandar a escrever. Mas para quem tem acesso a computador, mais fácil ainda: vá jogando tudo num arquivo. Na hora de produzir o roteiro pra valer mesmo, você pode salvar o tal arquivo com outro nome: é mais fácil cortar, reescrever, reorganizar, editar, enfim... Mas isso só é possível se já tiver algo escrito.

2) Organize as idéias

Muitas delas são bacanas, mas não funcionam numa história só (vale a pena guardar para outras). Pense que as coisas têm que fazer sentido - ações têm conseqüências, como na vida real, e espera-se que exista começo, meio e fim. Mesmo que a HQ seja contada fora de ordem cronológica. Ora, você não aprendeu nada mesmo quando estudou dissertação na escola?

Vale apelar para as perguntas básicas dos jornalistas: Quem? O quê? Como? Por quê? Quando? Onde? Enquanto você elabora respostas para essas perguntas, vai delineando a história na sua cabeça (e no papel).


3) Não escreva para si mesmo

Esta dica vale especialmente quando o roteiro será desenhado por outra pessoa (embora acredite que valha mesmo quando se desenha uma história própria, para não ter que confiar na memória).

Um roteiro é uma ferramenta de trabalho. Você deve expor de maneira clara, o mais objetivamente possível, o que pretende que seja desenhado. O desenhista será seu primeiro leitor. Se não conseguir capturar o interesse dele, quem dirá dos demais? Ele ainda terá uma série de decisões a tomar para desenhar (acompanhe um profissional decidindo sobre o que colocar numa página e verá como funciona), então não seja preguiçoso e dê um mínimo de detalhe sobre as cenas: se não, ele terá que “adivinhar” o que passou por sua cabeça.

E escreva corretamente em língua portuguesa, por favor: escrever bem só se aprende com bastante prática e boa leitura. Um roteiro com erros crassos de português perde total credibilidade e o interesse do leitor.


4) Não fale sobre uma ação: mostre-a.

Você pode ser desenhista ou não, mas é importante pensar que o que você está escrevendo vai virar imagens. Ao invés de colocar uma caixa de narração explicando que um personagem é malvado, crie uma situação na qual ele possa demonstrar sua malvadeza. Uma imagem não vale mais que mil palavras?

Quanto mais importante a ação, mais detalhes você tem que incluir no roteiro, que servirá como orientação para o desenhista. Se uma expressão de um personagem é importante, num determinado momento, peça um close (isso, como em linguagem cinematográfica). Se o importante é mostrar onde ele está, marque um plano geral do local.

Vale lembrar que, num roteiro, você identifica o texto que deve entrar no quadrinho (nos balões, ou nos quadros de narração). Este texto sempre deve ser complementar à ação. Na maioria das vezes será ridículo você colocar um quadro com a narração “Ele desferiu um soco no queixo do adversário” enquanto o que se vê é um sujeito dando um soco no queixo de outro.

5) O tempo dos quadrinhos é um caso à parte

O tempo nos quadrinhos é determinado por fatores como o tamanho e detalhamento de um desenho e pelo espaço de requadro (o intervalo entre um quadrinho e outro).

Você pode narrar ações simultâneas intercalando quadros. Você pode colocar num quadro ou numa seqüência de quadros, um desenho que mostre o tempo daquela ação (como uma seqüência que mostra um sujeito em sua cama do ato de dormir até o de acordar, enquanto no fundo do quadro vemos uma janela mostrando o sol que vai raiando).

E existe também o tempo de leitura: um quadro de página inteira pode ser lido rapidamente ou não, dependendo do tamanho do desenho e dos detalhes contidos nele. É uma opção que se faz. Mas lembre-se: por mais que o roteirista e desenhista se esforcem para colocar “amarras” no tempo da HQ, o leitor ainda vai querer determinar seu próprio tempo de leitura e pode até subverter a ordem de leitura, pulando páginas (é a parte mais interativa do negócio). Um bom roteiro ajuda o leitor a mergulhar na história como ela foi concebida.


E então, aticei sua curiosidade? Pois bem. O próximo passo é começar a construir suas próprias histórias. Fique aqui com um exemplo de roteiro, um trecho de uma HQ online que criei para o estúdio Impacto Quadrinhos, que foi desenhado para o site Ford Kids.

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Este texto participa da iniciativa Blogueiro Repórter.

Roteiro Kazé - As Férias da Turma

As Férias da Turma

A turma do Kazé (parte do roteiro)

Por Ricardo S. Tayra

Veja esta HQ finalizada no site Ford Kids (seção Quadrinhos, 2ª temporada - As férias da turma)

Cena 1


Quadro único
Interna geral da entrada de um Hotel luxuoso. O atendente, vestido em trajes formais, está atrás do balcão aguardando novos hóspedes. Passeiam por ali calmamente um casal de carros grã-finos. Até que... Entra correndo pela porta a turminha do Kazé (fazer animação). Todos correndo como loucos, falando sem parar, menos Maggy, que entra por último calmamente com uma expressão de “Dai-me paciência...” Imediatamente, o recepcionista e os transeuntes olham assustados pra turma...

NARRAÇÃO: ESSE NÃO É MAIS UM DIA QUALQUER NO LUXUOSO HOTEL TAMARINDO...

NARRAÇÃO2: ...PORQUE AÍ VEM A TURMA DO KAZÉ!

ONOMATOPÉIA/SOM: DIVERSAS BUZINADAS

FRED: ÔPA, ÔPA! OLHA A FRENTE!

BIA: ESTAMOS CHEGANDO!

KAZÉ: ENTREM LOGO! AQUI TEM AR CONDICIONADO!

MAGGY: É HOJE! EU MEREÇO!


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Cena 2

Quadro 1
Enquanto a turminha se dispersa pelo hall de entrada, Maggy se apresenta no balcão para o recepcionista. O recepcionista tenta parecer impecável, sem expressar emoções, bem “mordomo inglês”...

MAGGY: EU MEREÇO...

MAGGY2: OLÁ, MOÇO. EU TENHO UMA RESERVA PARA A TURMA. MEU NOME É MAGGY.

RECEPCIONISTA: AH, SIM, ESTÁ AQUI.


Quadro 2
Maggy vai respondendo ao recepcionista (que está fora de quadro), mas nem olha para ele, mais preocupada com o que a turma está fazendo enquanto isso. Ao fundo, Teco e Bia correm em zigue-zague de um lado para o outro, observando todo o local com expressão de felicidade eufórica.

RECEPCIONISTA (OFF): É A JOVEM POETISA, NÃO?

MAGGY: É, EU GANHEI A TEMPORADA AQUI NUM CONCURSO DE POESIAS...

TECO: OLHA SÓ BIA, COMO ESSE LUGAR É ENORME!

BIA: E A GENTE SÓ VIU A ENTRADA POR ENQUANTO, TECO!


Quadro 3
O recepcionista mostra para Maggy, apontando para a chegada do carregador (Uma courier vermelha com chapeuzinho de carregador e malas diversas da turma na caçamba). Fred vem correndo e esbarra no carregador, que treme, mas não deixa as malas caírem.

RECEPCIONISTA: O CARREGADOR MOSTRARÁ OS QUARTOS DE VOCÊS.

MAGGY: OBRIGADA.

FRED: EEEEI! DESCULPA AÍ, MEU CHAPA! ESSE CHÃO É LISO!

CARREGADOR: AI! ACABAMOS DE ENCERAR...


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Cena 3

Quadro 1
Estamos no quarto dos meninos. Bem amplo, com estacionamento acolchoado para os 5 dormirem. Kazé mexe em sua “cama”. Já Belo e Teco correm toda a extensão do quarto, ao fundo.

BELO: GENTE! ESSE QUARTO É I-M-E-N-S-O!

TECO: DÁ ATÉ PRA GENTE JOGAR FUTEBOL!

KAZÉ: É, ESSAS FÉRIAS PROMETEM!


Quadro 2
Cidão se aproxima de Kazé

KAZÉ: O HOTEL É CHEIO DE COISAS PRA FAZER. TEM QUADRAS ESPORTIVAS, VIDEOGAME...

CIDÃO: E GRAÇAS À MAGGY, NÉ, KAZÉ?

CIDÃO2: EU SABIA QUE ELA GOSTAVA DE LER, MAS NÃO SABIA QUE ELA ESCREVIA POESIAS TAMBÉM.


Quadro 3
Kazé termina de mexer na cama. Enquanto terminam a conversa, Fred chega na porta do quarto, convidando todos a saírem.

KAZÉ: ESCREVE, MAS NÃO DEIXA NINGUÉM LER. BOM, PELO MENOS NENHUM DE NÓS, PORQUE ELA MANDOU UMA POESIA PRO CONCURSO E GANHOU.

FRED: EI, GENTE! VAMOS CHAMAR AS MENINAS E SAIR POR AÍ. TEM UM BANDO DE COISA PRA FAZER!

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Cena 4

Quadro 1
Cidão, Teco e Bia se aventuram numa ondulada e sinuosa pista de lama, afinal, gostam mesmo é de aventura.

CIDÃO: ELES TÊM ATÉ UMA PISTA DE TERRA PARTICULAR!

BIA: E DÁ-LHE TRAÇÃO NAS 4 RODAS, CIDÃO!


Quadro 2
Panorâmica lateral. Ao fundo, vemos a pista de terra onde estão Teco em Bia. Em primeiro Plano, Karina corre atrás de Kazé, num pega-pega, derrubando vasos e pisando em plantas no caminho

KARINA: EI! MAS EU TE PEGUEI!

KAZÉ: NÃO PEGOU NÃO, KARINA! AINDA TÁ COM VOCÊ.


Quadro 3
Em primeiro plano está Maggy, meio envergonhada, sozinha num canto. Chega Belo para falar com ela. Ao fundo, Karina corre atrás de Kazé.

BELO: TUDO BEM MAGGY? O QUE FOI?

MAGGY: AH, BELO... A TURMA TÁ FAZENDO A MAIOR BAGUNÇA!


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Cena 5

Quadro 1
Câmera mais próxima de Maggy, que está desabafando. Mas logo Belo desvia sua atenção dela e passa a olhar pra alguma coisa fora do quadrinho...

MAGGY: TÁ CERTO QUE A GENTE CONSEGUIU TUDO AQUI DE GRAÇA, MAS ACHO QUE NÃO PRECISAVA EXAGERAR...

BELO: VOCÊ QUER DIZER TUDO DE GRAÇA?

MAGGY: É, POR QUÊ?

Quadro 2
Plano mais aberto, agora vemos o que Belo estava vendo: uma bomba de gasolina lá perto, com uma placa: SIRVA-SE. Belo, mais que depressa, deixa Maggy lá atrás falando sozinha e avança na bomba. Maggy fica lá com expressão raivosa, “soltando fumacinha”...

BELO: GASOLINA DE GRAÇA! IUPI!!!!! VENHAM TODOS!


Quadro 3
Cabisbaixa, Maggy vai entrando no hotel.

MAGGY: AI, A TURMA SÓ ESTÁ ME ENVERGONHANDO...

MAGGY2: ACHO MELHOR EU FICAR LÁ DENTRO PRA NÃO VER O QUE ELES ESTÃO APRONTANDO.



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Cena 6
Quadro 1
Chegando lá na entrada, vemos um desfile de carros famosos, “artistas”. Temos o furgão do Esquadrão Classe A, a Máquina do Mistério (do Scooby Doo), um carro parecido com o Silvio Santos (com direito a microfone), uma carrinha de xuquinhas como a Xuxa. Maggy vai chegando e falando com o recepcionista.


MAGGY: EI, O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI? OLHA LÁ! A CANTORA XAXA E O APRESENTADOR SINO SANTOS!

RECEPCIONISTA: ESTAMOS RECEBENDO DIVERSOS ARTISTAS PARA A GRAVAÇÃO DE UM PROGRAMA DE TV.


Quadro 2
Maggy se empolga. Ao fundo, a turminha vai entrando pela porta do hotel.

MAGGY: PUXA! ESPERE SÓ A TURMA SABER DISSO!

FRED: EI GENTE! É O SINO SANTOS!

Quadro 3
A turma entra correndo pra pedir autógrafo para os artistas. Detalhe: Cidão, Teco e Bia estão enlameados e começam a sujar todo o hall de entrada. Maggy fica envergonhadíssima.

FRED: MEU ÍDOLO! QUERO UM AUTÓGRAFO!

KARINA: EI! NÃO É AQUELA DUPLA...

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Cena 7

Quadro 1
Vemos a expressão de Maggy mudar para um ar de felicidade e surpresa ao ouvir o que disse Karina.

KARINA: ... OS SERTANEJOS XIMARQUINHO E TROLOLÓ?

MAGGY: HEIN?!

Quadro 2
XiMarquinho e Trololó estão cercados pela Turma do Kazé, que estão com cadernos pedindo autógrafos. Maggy vem “voando” se juntar a eles. Fred fala com ela.

MAGGY: EU ADORO ELES! AMO! LINDOS!

FRED: PREFIRO A FILHA DO TROLOLÓ...

FRED: MAS PARECE QUE FINALMENTE ENTROU NO CLIMA DE FÉRIAS, HEIN, MAGGY?

TROLOLÓ: CALMA, CALMA, CRIANÇAS!


Quadro 3
Turma cerca os sertanejos,a gora mais perto.

XIMARQUINHO: A GENTE IA DESCANSAR UM POUCO ANTES DO PROGRAMA...

TROLOLÓ: MAS SE VOCÊS QUISEREM, PODEMOS CANTAR UM POUQUINHO LÁ NO CAMARIM ENQUANTO NOS PREPARAMOS.

TURMA: ÔBA!

Veja esta HQ finalizada no site Ford Kids (seção Quadrinhos, 2ª temporada - As férias da turma)

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

“Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, de Marçal Aquino.

O título do livro já provoca uma curiosidade imensa. O nome do autor, mais ainda, quando sabemos que é o nome dele mesmo, Marçal Aquino, não se trata de pseudônimo.

Pode mesmo um livro chamar: Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios ?

Queremos o que não podemos ter, não é verdade? Este pensamento passa e repassa por diversas vezes pela mente do narrador-protagonista, de nome de “igual ao do cantor”, enquanto conta sua história numa cidadezinha do Pará que está à beira de uma corrida do ouro. De como conheceu a mulher errada – linda, irresistível e complexa - de como se envolveu com ela e como isso o levou à situação em que está, morando na pensão de Dona Jane, ao lado do Careca e do garoto que circula por lá.

Se só isso não bastar para que conheça o livro, pense no autor. Marçal é roteirista de cinema (!!!), tá lá nos créditos de O Cheiro do Ralo, Os Matadores, O Invasor e Nina, entre outras produções nacionais. Gosta de quadrinhos. Despertou para a literatura com Monteiro Lobato. E, tem outros livros com títulos bacanas (se for escolher pelo título, meu próximo da lista será o seu Famílias terrivelmente felizes).

É pouco? Não? Então mergulhe fundo e se deixe envolver pela trama de sexo, fotografia, política, religião e comportamento humano.

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Ficou curioso? Então dê um pulo no site da Livraria Cultura e compre o livro.

Terça-feira, 6 de Maio de 2008

Concurso de Contos do Estadão homenageia Bossa Nova

Com a Bossa Nova completando 50 anos, pipocam homenagens por aí. A última do Estadão é bacana: um concurso de contos para os leitores de seu Caderno 2.

Sabe o último verso da célebre música Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, o famoso “Não quero mais esse negócio de você longe de mim”? Pois é, os interessados em participar devem criar contos de, no máximo, 3 mil caracteres (incluindo espaços em branco), utilizando esta frase em algum momento. Serão escolhidos 10 contos vencedores, que serão publicados num encarte especial no jornal O Estado de S.Paulo, em data a confirmar, em 2008.

Então corra pra produzir o seu, as inscrições vão até 31 de maio próximo. A data de divulgação dos vencedores também não está confirmada.

Os contos devem ser enviados colados no corpo da mensagem, não anexos. Isso ajuda muito pra quem tem que ler diversos e-mails, evita que ainda tenha que abrir arquivo por arquivo... Deverá conter um título e acompanhado do nome do autor, endereço completo, incluindo CEP e telefones, números de R.G. e C.P.F., bem como um minicurrículo de no máximo 1 mil caracteres, ou 170 palavras. O endereço para envio é contos.bossa@grupoestado.com.br .

O regulamento completo você lê no site do Estadão, clicando aqui.